segunda-feira, dezembro 07, 2015

Um "bom dia" faz um dia bom

Uma das razões pelas quais gostamos da nossa vizinhança é porque toda a gente se cumprimenta e se entreajuda nos pequenos gestos do quotidiano, como segurar a porta a quem traz um carrinho de bebé ou um saco de compras. Sabemos o nome de poucos vizinhos, ainda não tivemos tempo de criar relações, mas todos os dias, nas entradas e saídas de casa, temos sempre por companhia uns bons dias, alguém que nos acena quando passamos de carro, há sempre umas palavras ternas para as crianças, e muitos sorrisos. A minha menina está convencida que um dos critérios para morar no bairro é ser simpático, por isso outro dia não acreditou quando lhe disse que acenei a um vizinho quando saía da garagem e ele não retribuiu - De certeza que esse senhor é cego, mamã.


Este vídeo da campanha Contagiemos Valores, iniciativa de uma instituição cívica argentina, fez-me sorrir de gratidão por ter vários lugares assim no meu quotidiano. É bom cumprimentar e ser cumprimentado. Como diz o meu pai, nunca sabemos quando é que alguém que se cruza connosco está a precisar de um sorriso e uma palavra calorosa. Mas sabemos como isso nos sabe bem nos dias mais sombrios. Ouvir um "bom dia" torna um dia bom, às vezes.

O promotor desta campanha, que tem vários vídeos no youtube, é o Comité Interreligioso pela Paz, de Córdoba, Argentina. Sou um bocado avessa a doutrinações e a dogmas no que diz respeito à cultura e à vida em sociedade, mas gostei da forma como esse comité se apresenta no seu site: Nos interesa compartir la sabiduría de nuestras tradiciones y mostrar que la convivencia en la diversidad es un desafío posible.

A sabedoria das tradições. Conviver na diversidade. Parece fácil, não parece?

quarta-feira, novembro 25, 2015

Cozinhas feias e outras reflexões

Às vezes acontece eu estar a reflectir em alguma questão ou a passar uma determinada fase e dar de caras com alguém que consegue resumir de forma certeira aquilo que anda revolto na minha cabeça, nas minhas emoções. Foi o caso do post que li ontem da Minimalist Mom, um blog sobre vida simples que acompanho há alguns anos.

O post chama-se How to love your ugly kitchen e o título chamou-me a atenção por ser paradoxal, mas também porque fez tocar um pequeno sininho cá dentro.

A autora conta como, depois de uns anos a viver na Europa, regressou ao Canadá e à casa que tem em Vancouver, com a família. Acompanho a jornada desta família e por isso sei que todas as mudanças lhes trazem sempre mais uma lição e mais plenitude na sua escolha de vida simples. O título deste post sobre como amar a nossa cozinha feia fez-me lembrar outro post antigo dela que me ajudou, por toda a reflexão que induziu, a dar grandes passos de serenidade. Ela dizia, a propósito de todas as transformações que a vida dela ia passando, à medida que tinha filhos, que amadurecia, que ia evoluindo na sua relação com o mundo, que é preciso aceitar a fase da vida em que estamos. Deixá-la correr, deixá-la ser o que é, sem tentar mudar o que não pode ser mudado, sem lamentar o que se perde - aceitar aquilo que tem que ser tal como é.

Eu, mãe recente e com uma vida muito mais atribulada do que queria, com um desajustamento íntimo que me deixava desconfortável, beneficiei muito ao pensar nisso - e ao treinar-me para aprender a aceitar as fases da vida.

Com a cozinha feia, também se tratou de aceitação. Ao regressar à casa de Vancouver, ela lembrou-se de como não gostava muito da cozinha, que era feia, pequenina, sem a arrumação ideal. Contudo, tal como quando lá tinham vivido antes, a cozinha funcionou, as coisas foram arrumadas de uma forma ou de outra, e a vida continuou. Agora, a família dela tem outras prioridades e não sobra dinheiro para reformar a cozinha, por isso vão ter que continuar a viver com ela assim... feia.

I’m learning to love my ugly kitchen. Ugly kitchens are a first world problem. I’m lucky to live where I live and have what I have.

E mais uma vez, a Minimalist Mom resume o que anda revolto no meu pensamento e que eu tenho praticado sem conseguir dar-lhe um nome. Boa parte daquilo que nos consome são problemas de primeiro mundo. Cozinhas feias, não ter roupa que nos satisfaça, estar cansada das mesmas botas, aborrecer-se no trabalho, esperar numa fila de trânsito, demorar no supermercado por causa da velhinha tagarela que nos antecede na caixa. Problemas de primeiro mundo não são problemas. Temos sorte quando a primeira chatice existencial que nos ocorre é a nossa cozinha feia, o nosso guarda-vestidos monótono, os canais de televisão onde não dá nada de jeito, o trânsito na VCI.

Um dos problemas que me consumia e deixou de consumir, entre muitos outros mais sérios - há quanto tempo não escrevo aqui? - era o de não conseguir manter a escrita no blog regular. Tinha criado um público, tinha pessoas que esperavam pelos meus posts e sentia que devia escrever com horas e dias certos, alimentar essa audiência, disciplinar-me. Eu sinto necessidade de escrever, é a forma mais autêntica de me relacionar com a realidade, comigo, com os outros, com o mundo que cintila e borbulha em meu redor. Mas nos últimos meses, passei por mudanças grandes para mim, embora mínimas para a humanidade. E não tinha vontade, força, motivação, desejo. A novidade é que deixei de me sentir angustiada por isso.

Por isso, eu que gosto de cozinhas feias e de muitas coisas feias em geral, porque tantas vezes são as mais genuínas, quero ir voltando a escrever sobre os meus locais habituais, mas não prometo quando nem como.
Vou escrevendo, se vocês quiserem, vão lendo também.

segunda-feira, junho 29, 2015

Avulsas a propósito de Lavra

A inocência dos lugares esvai-se com muitos anos de jornalismo na secção Local. Ontem fui à praia em Lavra e ao passar no centro da vila, de caminhos novos e o cimento ainda sem patine, lembrei-me dos detalhes do projecto de obras, do estradão novo, dos arranques e dos remates. E até de pormenores de outras obras em freguesias de Matosinhos, incluindo a requalificação das escolas, da polémica do quarteirão das Conservas Algarve Exportador. Dos pipelines da refinaria, dos furos na rede da anénoma, da estilha que voava sobre a vedação do porto de Leixões e do estranho caso da rua de Cires - uma das melhores histórias banais que narrei na minha vida.
Lembro-me também que, uma ocasião, o presidente da Câmara da Maia declarou que para a Maia ser perfeita, bastava-lhe anexar Lavra e ter costa. O mesmo sente Minas Gerais em relação ao estado do Espírito Santo, mas em muito maior.


segunda-feira, maio 18, 2015

Final feliz da história de um livro

Uma das práticas que mais aprecio nesta vida é a gratidão. De dar e receber. Lembram-se do livro "Antes que Anoiteça", do Reinaldo Arenas, cujo paradeiro esgravatei esforçadamente para o dar ao meu colega António, que o procurava com fé? Pois o António agradeceu devidamente. E regalou-se, dando a esta história um final feliz.

quarta-feira, maio 13, 2015

Das modas

Podia dizer muitas coisas sobre a moda das sapatilhas de cunha, mas uma mulher de estrutura larga e capacidade de projecção de voz tão larga quanto a sua estrutura disse-o muito bem e resumidamente ao entrar na loja de desporto onde eu fui, domingo à tarde.

- Eu quero é ber as sapatilhas de tacom.



quinta-feira, maio 07, 2015

Patas de caranguejo

És uma vulgar lambona, é o que tu és. Bem feita estares aí cheia de vómitos, suores frios e a sentires que vais desmaiar no meio da praça da Batalha. Bem feita por seres lambona. Isto era o que me dizia, de braços cruzados, a velha amarga que me serve de consciência. Dizia-me isto, a muito vaca, em vez de me deitar uma mão, em vez de me sentar e me chegar uma águinha das pedras. Nada, a grande velhaca. Continuava a dar-me sermões.

Não sei o que ando aqui a fazer, tanto pedi para ser consciência de outra pessoa, mas não - ralhava ela, sem pena de mim, do meu estômago inchado, dos meus suores frios, do meu andar trôpego pela praça da Batalha fora. Tinha que me calhar uma pessoa estúpida que, de tantos em tantos anos, por ser lambona, consegue convencer-se que a sua intolerância ao marisco é psicológica. Mas ó dona consciência, balbuciava eu, a desapertar o cinto onde não me cabia o estômago inchado, mas era uma tempura de caranguejo de casca mole... do melhor restaurante de sushi que já conheci na vida, um sushiman tão simpático, a fazer aquilo para nós... E sabia a tapioca, não sabia a caranguejo. E era lindo, lindo, assim dourado, com as patinhas abertas como raios de sol...

Quais raios de sol, qual tapioca, sua lambona. Como é possível que tantos anos a vomitar patinhas de caranguejo não te tenham ensinado nada, como é possível? E a panqueca japonesa com amêijoa, qual é a explicação?, e berrava-me, a muito bruta, sem pena de mim, quase a vomitar na Baixa do Porto. Vomita por aí, dizia ela, que estes turistas todos vão pensar que estás bêbada, é bem feita, sua lambona. Tentei explicar que a panqueca não sabia a amêijoa e estava tão linda, assim coberta de sementinhas e coisinhas verdes, ai coisa tão boa, ó consciência, mas tu não tens coração?

Tenho coração, dizia ela, e felizmente não tenho o teu estômago que parece um balão, é bem feita, é bem feita. Mas a grandessíssima não pode ganhar sempre e ocorreu-me uma coisa. Limão, gritei eu, limão! Quando me sentia a morrer dos enjoos da gravidez, comia calipos de limão. E fui à gelataria ali a chegar à 31 de Janeiro comprar uma bolinha de sorvete de limão e em boa hora, meus amigos, na melhor hora. Conteve-me as náuseas, acalmou-me o sabor amargo da boca e permitiu-me manter a compostura enquanto aliviava os suores com o ar fresco nas trombas.

A minha consciência está amuada comigo e não lhe digam que ainda sinto patas de caranguejo e ameijôas a fazer zumba no meu estômago, que ela não precisa de saber tudo da minha vida, está bem?

quarta-feira, abril 15, 2015

TPM

Chocolate preto, amo você.
Padaria do largo com broa de mel do dia, amo você.
Paracetamol de efeito rápido, amo você.
Leggings largas, amo vocês.
Corrector de olheiras, amo você.

Colegas fêmeas que também chegaram hoje com má cara e dores de cabeça, bufando e preferindo ter ficado no sofá todo o dia, amo vocês.

Local de trabalho cheio de mulheres onde nunca falta quem tenha um evax, um benuron, lenços de papel e bolachas na gaveta, amo você.

segunda-feira, abril 13, 2015

História de um livro

Comprei a biografia do escritor e dissidente cubano Reinaldo Arenas - "Antes que Anoiteça" - há quase 14 anos e sei disto porque tenho o hábito de escrever nos livros a data e o lugar, depois de os comprar. O livro mexeu muito comigo. Tinha 24 anos, estava a passar uma fase de alguma turbulência emocional e o sufoco daquele homem buliu com todas as células da minha alma. Levei-o para uma viagem à Grécia, da qual não esperava muito senão afastar-me um bocado da rotina, porque fui com os meus pais e os amigos deles. Acabei por me divertir bastante nesse generation gap e li o livro tão depressa que fiquei sem mais nada para ler a viagem toda.


Depois, o "Antes que Anoiteça" ficou algures na casa dos meus pais e nunca mais o reli, pelas memórias de agitação interior que me trazia. Até agora. Há uns tempos, o António escreveu no facebook que procurava avidamente esse livro, sem o conseguir encontrar, se alguém o tinha, se sabia onde o arranjar. E o Reinaldo Arenas voltou a entrar no meu caminho. Sabia que o tinha, mas onde? Revirei todas as estantes de casa dos meus pais e demais lugares de arquivo bibliotecário. Os meus pais são leitores tão intensivos quanto eu e há centenas de livros naquela casa. Passei a pente fino as estantes do escritório. Levei uma comitiva de irmã, filha e sobrinha ao sótão onde tenho uma dúzia de caixotes com livros. Nada.


Andei intrigada umas semanas. Onde diacho andava o livro? Um dia, por acaso, dei com alguns livros meus num armário da adega - ou o lugar de arrumos genéricos a que chamamos adega. Estavam lá algumas pérolas do meu passado, que apertei nas mãos com saudades: Florbela Espanca. Natália Correia, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Camilo Castelo Branco - my preciooouuus! E, lá no meio, a cara do Javier Bardem, que fez de Reinaldo Arenas na adaptação do livro ao cinema. É uma edição de bolso da Asa, editora que fez colecções de bolso que acumulei com ardente paciência, como a Pequenos Prazeres.


Enviei uma foto ao António, ainda queres? E ele que sim.



Eu agradeço, claro, sem saber muito bem como agradecer, porque este deve ser o livro que mais procurei e que menos encontrei - disse o António.


Antes de lho enviar, atrevi-me a reler, quase 14 anos depois. Diz que as peças de arte amadurecem, mas claro que nós é que amadurecemos e tiramos sempre mais coisas delas, ou coisas diferentes. Quase 14 anos depois, o Reinaldo mexeu comigo outra vez, mas de outra maneira. Mais limpa, poderosa, empática. A clareza e a força da narrativa. A intensidade da história. O perdão e a conciliação permanente com a vida - quase nunca podemos escolher o que vivemos, mas quase sempre podemos escolher como o vivemos. Mas aquele livro já não era meu quando comecei a relê-lo, já era do António e então endossei-o devidamente. 





Foi comigo numa viagem a Lisboa, onde o li quase todo. E enquanto esperava pelo comboio de regresso, parei num daqueles outlets de livros que há nas estações de comboio e nos quais já adquiri grandes títulos, sem danos financeiros colaterais, incluindo muita literatura brasileira. E eis que lá estava outra vez o Reinaldo Arenas, cruzando-se comigo. "Celestino antes da madrugada", que escreveu em 1982 e conseguiu enviar clandestinamente para publicação fora de Cuba. 4 euros, tão pouco por tanta riqueza.




Ao pagar, diz-me a senhora da caixa que criou aquela prateleira de escritores latino-americanos porque chegavam tantos livros bons que ela achou que mereciam um lugar próprio. E que pusera aquele livro do Reinaldo Arenas no topo da pilha porque vira há pouco na televisão o filme "Antes que Anoiteça" e percebeu que não sabia nada daquele autor, tendo ficado a desejar muito lê-lo. Foi um lindo momento quando eu tirei o "Antes que Anoiteça" da carteira e trocamos as duas um enorme sorriso de leitoras satisfeitas.

De maneira que, Reinaldo, voa agora para as mãos do António. A todos nós, de alguma forma, a escrita nos salva.

terça-feira, março 24, 2015

Da natureza

Duas crianças de quase sete anos juntas um dia e meio fazem com que o ar se encha de: mamas, pila, rabo gordo, cocó, xixi. Ergui um dedo ameaçador e avisei: já ouvi essas palavras muitas vezes, já sei que existem, agora estão proibidos de estar sempre a dizer essas palavras, arranjem outro assunto. Pouco depois, os dois à janela. "Olha aquela, tem mamas gordas". E eu, outra vez à carga, que se acabou a conversa de mamas. Mais um bocado e entraram as vacas no diálogo. "As vacas têm umas mamas mesmo gordas".

Catraios de um raio. "O que foi, mãe? As vacas têm mamas, como toda a gente tem mamas, e as vacas são animais da natureza. Não se pode falar da natureza?". É facto. Aos quase sete anos, provando ser certa a máxima do filósofo Sócrates, defensor de que a lógica vem de origem dentro de todos nós, basta que puxemos por ela, a minha filha cita Leonardo Da Vinci sem saber.


O vento levanta-se


Le vent se lève! . . . il faut tenter de vivre!, disse Paul Valéry e disse-o o título do último filme do Miyazaki,  com o empobrecido título português "As asas do vento". Tão magnético, de uma subtileza tão carnal, que a gente se esquece que está a ver bonecos.
O vento levanta-se!... é preciso tentar viver!

Better said than done, better said than done, Miyazaki...

segunda-feira, março 23, 2015

As voltas da vida

Edward William Allen, ou Duarte Guilherme Allen, perdeu a mulher Violante no parto do 13ª filho, uma menina a quem chamou Bárbara, para nunca se esquecer que tinha matado a mãe. Inconformado, não quis conhecer essa filha durante mais de trinta anos e, mesmo voltando algumas vezes ao continente, depois de sair de Viana do Castelo para se instalar na Madeira, nunca a quis ver. Voltou a casar e teve mais dois filhos. A rejeitada Bárbara também seguiu a sua vida, casou com um homem rico, foi viver para Lisboa e teve 15 filhos.

Que a vida dá muitas voltas e que nunca se deve cuspir para o ar é máxima sensata que já valia no século dezoito e há-de valer pelos séculos dos séculos. Quando Duarte Guilherme regressou ao continente doente e muito velho, foi a sua filha enjeitada quem lhe deitou a mão, o acolheu e dele cuidou nos últimos anos de vida. Tinha Bárbara 34 anos, a mesma idade com que a sua mãe morrera no dia em que ela nasceu.

Duarte Guilherme não deixou de assinalar isso, no seu suspiro de velho doente. Morreu aos 81 anos, em Lisboa.

sexta-feira, março 20, 2015

Vigor

És uma mulher ou uma ratazana, era o que me gritava a consciência quando, às sete da manhã, acordada há uns gordos minutos, me debatia com a velha lei da inércia. A minha consciência é muito má para mim, não sei como ainda a aturo ao fim de tantos anos. Só me cobra, a grandessíssima. Só me cobra e nunca me dá nada. Levanta-te e anda, ratazana, gritava ela, com aquela voz de reitora de colégio de freiras. Eu nunca andei num colégio de freiras, ouviste, eu sou um daqueles bons e robustos produtos da escola pública, desde a primária até à universidade! Eu sou laica e republicana, não temo o inferno nem me dobro às castas, estás a ouvir, sua velha ressabiada?

És uma ratazana, insistia ela, e depois ergueu os cantos dos seus lábios secos num assomo de sorriso cínico - a minha consciência nunca sorri, só assoma - para me indicar que não matasse o mensageiro. Recordou-me que eu mesma, andando mais cotovia que nunca, prometera que se acordasse espontaneamente muito cedo, daria corda às sapatilhas para pôr este rabo e estas coxas com uma rijeza condizente com a dos meus princípios éticos. E olhasse para o relógio, olhasse: 6.50 horas de uma manhã cinzenta, porém, amena. Anda, ratazana, faz-te mulher.

E eu fiz, embora decorrendo ainda mais 45 minutos de ratazana, após os quais decidi que se era para estar a ter pensamentos lúgubres, mas valia tê-los enrijecendo as coxas. E lá fui eu, com os fones nos ouvidos, desenrolando a minha lista Vigor, que é a das caminhadas. Começa com Djavan e acaba com Amy Winehouse e contar isto dá-me uma falsa aura de sensato consumo musical. O meu vizinho que estava à porta de óculos escuros, a fumar um cigarro, surpreendeu-me a caminhar dançando. Sim, dançando, ou vão-me dizer que resistem a abanar as nádegas quando alguém do outro lado dos fones berra "Kuduru!", sendo mesmo isso que pretende quem caminha às oito e tal da manhã.

Eu sei, vizinho, é esta minha expressão grave, de costas direitas, de quem lê o Expresso e filósofos contemporâneos. Pois tenho que lhe confessar que leio o Expresso só de vez em quando, o João Quadros é o meu filósofo contemporâneo preferido e, não raras vezes, começo a minha leitura diária de jornais pelas páginas finais do Correio da Manhã. Normalmente, a minha cara de mulher séria sou só eu a dar-me ares. Vocês também devem andar enganadinhos, mas eu nunca enganei ninguém, e a minha consciência está a assomar um sorriso cínico neste momento. É verdade, que queres, velha rabujenta? Se a minha playlist do Vigor tem pelo meio, além do kuduru, bandas chamadas João Lucas & Marcelo, Aviões do Forró, Sorriso Maroto e Tchê Garotos, estamos num país livre e ninguém tem nada a ver com isso.

quinta-feira, março 19, 2015

Julguem a minha mãe

"Ai, rapariga, estás tão magra. O que te vale é teres essa perna grossa, senão parecias um esqueleto".

Obrigada, mãe, sempre a considerar-te.

quarta-feira, março 18, 2015

Me julguem

Já fiz uma permanente e madeixas vermelhas.
Uma fotografia minha com 16 anos está num livro de Religião e Moral.
A minha comida de conforto é Nestum de arroz com açúcar.
Já acabei com um namorado porque ele não sabia quem era o Eça de Queiroz.
Ouço com frequência bandas sonoras de novelas brasileiras.
Até há poucos anos, desconhecia o verdadeiro significado da palavra basculante.
Sempre acompanhei os meus desgostos de amor com licores, tendo porém evoluído do licor Beirão para a ginginha e Porto vintage.
Apesar disso, nunca apanhei uma bebedeira a sério na vida.
Apesar disso, não planeio apanhar uma bebedeira a sério na vida porque acho que a gente esquecer-se do que faz é o pior que nos pode acontecer.
Reprovei no primeiro ano da catequese, mas a minha mãe já superou a vergonha.
Já conheci pessoalmente o Tony Ramos.
Acho que a pior bebida do mundo é a Seven Up.
Continuo a achar que toda a minha vida está nas canções dos Bonjovi.
Entre as leituras da minha vida estão os contos da Florbela Espanca.
Fico sempre mal nas selfies.
Uma das coisas mais incríveis que me aconteceu foi receber uma carta de um leitor de Ponta Delgada quando trabalhava num jornal regional do Porto.
Algo no meu organismo faz apitar o controlo de segurança dos aeroportos cerca de dois terços das vezes que lá passo.
Sucede-me muitas vezes sonhar com coisas que depois me acontecem e isso arrepia-me.
A seguir a escrever, a coisa que sempre quis fazer na vida foi ser actriz de teatro.
Entre as minhas comidas preferidas estão sangue de porco cozido com azeite, arroz de cabidela e fígado de cebolada.

Agora, como diz o Wandson, me julguem.



terça-feira, março 17, 2015

Escrita, ganha asas

Outras coisas recomeçam. Os workshops de escrita quotidiana Escrita Habitual vão regressar. Lisboa, Porto, Coimbra e onde mais houver gente com ideias, palavras a voar pela alma e muita vontade de soltar os escritores que trazem dentro. Garanto que os consigo soltar. Candidatos a escrever mais e melhor, apresentem-se - enviem mail para locaishabituais@gmail.com.

O primeiro workshop será em Abril, para um público muito especial, e já tem as vagas fechadas. Um grupo de pessoas que conheci há umas semanas, numa reportagem que me encheu o coração, e cujas palavras sábias, intensas e maravilhosas precisam de ser dadas ao mundo. Depois conto tudo.

Em Lisboa, há uns meses, foi assim, num estúdio encantador na LX Factory, com as minhas formandas concentradíssimas a treinar uma competência fundamental, a edição.


Do sétimo andar, vê-se o mundo tal como ele é

Do sétimo andar vê-se a rua toda, mas da rua não se vê o sétimo andar. A não ser que nos ocorra que do sétimo andar se vê a rua toda. Não ocorreu à senhora de certa idade que caminhava ao lado do marido e parou quando chegou ao tapume do prédio em obras, atrás do qual se agachou a fazer xixi, enquanto o marido prosseguia lentamente, fingindo que ninguém mijava por perto.
Do sétimo andar, vê-se o mundo tal como ele é. E a quase ninguém ocorre olhar para o sétimo andar, conferindo se alguém observa. O sétimo andar tem grandes possibilidades literárias.