sexta-feira, março 20, 2015

Vigor

És uma mulher ou uma ratazana, era o que me gritava a consciência quando, às sete da manhã, acordada há uns gordos minutos, me debatia com a velha lei da inércia. A minha consciência é muito má para mim, não sei como ainda a aturo ao fim de tantos anos. Só me cobra, a grandessíssima. Só me cobra e nunca me dá nada. Levanta-te e anda, ratazana, gritava ela, com aquela voz de reitora de colégio de freiras. Eu nunca andei num colégio de freiras, ouviste, eu sou um daqueles bons e robustos produtos da escola pública, desde a primária até à universidade! Eu sou laica e republicana, não temo o inferno nem me dobro às castas, estás a ouvir, sua velha ressabiada?

És uma ratazana, insistia ela, e depois ergueu os cantos dos seus lábios secos num assomo de sorriso cínico - a minha consciência nunca sorri, só assoma - para me indicar que não matasse o mensageiro. Recordou-me que eu mesma, andando mais cotovia que nunca, prometera que se acordasse espontaneamente muito cedo, daria corda às sapatilhas para pôr este rabo e estas coxas com uma rijeza condizente com a dos meus princípios éticos. E olhasse para o relógio, olhasse: 6.50 horas de uma manhã cinzenta, porém, amena. Anda, ratazana, faz-te mulher.

E eu fiz, embora decorrendo ainda mais 45 minutos de ratazana, após os quais decidi que se era para estar a ter pensamentos lúgubres, mas valia tê-los enrijecendo as coxas. E lá fui eu, com os fones nos ouvidos, desenrolando a minha lista Vigor, que é a das caminhadas. Começa com Djavan e acaba com Amy Winehouse e contar isto dá-me uma falsa aura de sensato consumo musical. O meu vizinho que estava à porta de óculos escuros, a fumar um cigarro, surpreendeu-me a caminhar dançando. Sim, dançando, ou vão-me dizer que resistem a abanar as nádegas quando alguém do outro lado dos fones berra "Kuduru!", sendo mesmo isso que pretende quem caminha às oito e tal da manhã.

Eu sei, vizinho, é esta minha expressão grave, de costas direitas, de quem lê o Expresso e filósofos contemporâneos. Pois tenho que lhe confessar que leio o Expresso só de vez em quando, o João Quadros é o meu filósofo contemporâneo preferido e, não raras vezes, começo a minha leitura diária de jornais pelas páginas finais do Correio da Manhã. Normalmente, a minha cara de mulher séria sou só eu a dar-me ares. Vocês também devem andar enganadinhos, mas eu nunca enganei ninguém, e a minha consciência está a assomar um sorriso cínico neste momento. É verdade, que queres, velha rabujenta? Se a minha playlist do Vigor tem pelo meio, além do kuduru, bandas chamadas João Lucas & Marcelo, Aviões do Forró, Sorriso Maroto e Tchê Garotos, estamos num país livre e ninguém tem nada a ver com isso.

3 comentários:

calita disse...

Ai, Dora, eu não te disse que ias catapultar este blog para a fama? Tu dá-lhe, carago!

Clara da Cruz disse...

É maravilhoso ter-te de volta e assim tão inspirada!
Invejo-te a coragem de acordar cedo para tal prática. A minha consciência também me diz que deveria fazer alguma coisa para eliminar estas assas de morcego que começam a aparecer por todo o corpo, mas não é tão poderosa e convincente como a tua! Fico-me pelo quentinho da cama!

Vania Lacerda disse...

Essa tua play-list está mesmo boa para animar uma pessoa! Como diz um médico famoso por estes lados, e que incentiva muito a prática de atividades físicas: "não quero enganar ninguém. Fazer atividades físicas não é natural nem prazeroso. Prazer mesmo é qdo a gente termina!"