segunda-feira, abril 13, 2015

História de um livro

Comprei a biografia do escritor e dissidente cubano Reinaldo Arenas - "Antes que Anoiteça" - há quase 14 anos e sei disto porque tenho o hábito de escrever nos livros a data e o lugar, depois de os comprar. O livro mexeu muito comigo. Tinha 24 anos, estava a passar uma fase de alguma turbulência emocional e o sufoco daquele homem buliu com todas as células da minha alma. Levei-o para uma viagem à Grécia, da qual não esperava muito senão afastar-me um bocado da rotina, porque fui com os meus pais e os amigos deles. Acabei por me divertir bastante nesse generation gap e li o livro tão depressa que fiquei sem mais nada para ler a viagem toda.


Depois, o "Antes que Anoiteça" ficou algures na casa dos meus pais e nunca mais o reli, pelas memórias de agitação interior que me trazia. Até agora. Há uns tempos, o António escreveu no facebook que procurava avidamente esse livro, sem o conseguir encontrar, se alguém o tinha, se sabia onde o arranjar. E o Reinaldo Arenas voltou a entrar no meu caminho. Sabia que o tinha, mas onde? Revirei todas as estantes de casa dos meus pais e demais lugares de arquivo bibliotecário. Os meus pais são leitores tão intensivos quanto eu e há centenas de livros naquela casa. Passei a pente fino as estantes do escritório. Levei uma comitiva de irmã, filha e sobrinha ao sótão onde tenho uma dúzia de caixotes com livros. Nada.


Andei intrigada umas semanas. Onde diacho andava o livro? Um dia, por acaso, dei com alguns livros meus num armário da adega - ou o lugar de arrumos genéricos a que chamamos adega. Estavam lá algumas pérolas do meu passado, que apertei nas mãos com saudades: Florbela Espanca. Natália Correia, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Camilo Castelo Branco - my preciooouuus! E, lá no meio, a cara do Javier Bardem, que fez de Reinaldo Arenas na adaptação do livro ao cinema. É uma edição de bolso da Asa, editora que fez colecções de bolso que acumulei com ardente paciência, como a Pequenos Prazeres.


Enviei uma foto ao António, ainda queres? E ele que sim.



Eu agradeço, claro, sem saber muito bem como agradecer, porque este deve ser o livro que mais procurei e que menos encontrei - disse o António.


Antes de lho enviar, atrevi-me a reler, quase 14 anos depois. Diz que as peças de arte amadurecem, mas claro que nós é que amadurecemos e tiramos sempre mais coisas delas, ou coisas diferentes. Quase 14 anos depois, o Reinaldo mexeu comigo outra vez, mas de outra maneira. Mais limpa, poderosa, empática. A clareza e a força da narrativa. A intensidade da história. O perdão e a conciliação permanente com a vida - quase nunca podemos escolher o que vivemos, mas quase sempre podemos escolher como o vivemos. Mas aquele livro já não era meu quando comecei a relê-lo, já era do António e então endossei-o devidamente. 





Foi comigo numa viagem a Lisboa, onde o li quase todo. E enquanto esperava pelo comboio de regresso, parei num daqueles outlets de livros que há nas estações de comboio e nos quais já adquiri grandes títulos, sem danos financeiros colaterais, incluindo muita literatura brasileira. E eis que lá estava outra vez o Reinaldo Arenas, cruzando-se comigo. "Celestino antes da madrugada", que escreveu em 1982 e conseguiu enviar clandestinamente para publicação fora de Cuba. 4 euros, tão pouco por tanta riqueza.




Ao pagar, diz-me a senhora da caixa que criou aquela prateleira de escritores latino-americanos porque chegavam tantos livros bons que ela achou que mereciam um lugar próprio. E que pusera aquele livro do Reinaldo Arenas no topo da pilha porque vira há pouco na televisão o filme "Antes que Anoiteça" e percebeu que não sabia nada daquele autor, tendo ficado a desejar muito lê-lo. Foi um lindo momento quando eu tirei o "Antes que Anoiteça" da carteira e trocamos as duas um enorme sorriso de leitoras satisfeitas.

De maneira que, Reinaldo, voa agora para as mãos do António. A todos nós, de alguma forma, a escrita nos salva.

1 comentário:

JTereso disse...

Também o tenho cá em casa. Também o li todo numa viagem. Esforcei-me para fazê-lo durar, para não ficar sem livro a meio da viagem. Fez-me usufruir ainda mais da obra. Vale a pena fazê-lo durar. Gostei muito. Inicialmente, torci o nariz ao estilo de escrita mas depois rendi-me. Sem ser uma escrita brilhante, é uma escrita cativante e uma história que nos impressiona, comove e revolta.

Nunca mais li nada dele... agora fiquei com vontade!