terça-feira, março 24, 2015

Da natureza

Duas crianças de quase sete anos juntas um dia e meio fazem com que o ar se encha de: mamas, pila, rabo gordo, cocó, xixi. Ergui um dedo ameaçador e avisei: já ouvi essas palavras muitas vezes, já sei que existem, agora estão proibidos de estar sempre a dizer essas palavras, arranjem outro assunto. Pouco depois, os dois à janela. "Olha aquela, tem mamas gordas". E eu, outra vez à carga, que se acabou a conversa de mamas. Mais um bocado e entraram as vacas no diálogo. "As vacas têm umas mamas mesmo gordas".

Catraios de um raio. "O que foi, mãe? As vacas têm mamas, como toda a gente tem mamas, e as vacas são animais da natureza. Não se pode falar da natureza?". É facto. Aos quase sete anos, provando ser certa a máxima do filósofo Sócrates, defensor de que a lógica vem de origem dentro de todos nós, basta que puxemos por ela, a minha filha cita Leonardo Da Vinci sem saber.


O vento levanta-se


Le vent se lève! . . . il faut tenter de vivre!, disse Paul Valéry e disse-o o título do último filme do Miyazaki,  com o empobrecido título português "As asas do vento". Tão magnético, de uma subtileza tão carnal, que a gente se esquece que está a ver bonecos.
O vento levanta-se!... é preciso tentar viver!

Better said than done, better said than done, Miyazaki...

segunda-feira, março 23, 2015

As voltas da vida

Edward William Allen, ou Duarte Guilherme Allen, perdeu a mulher Violante no parto do 13ª filho, uma menina a quem chamou Bárbara, para nunca se esquecer que tinha matado a mãe. Inconformado, não quis conhecer essa filha durante mais de trinta anos e, mesmo voltando algumas vezes ao continente, depois de sair de Viana do Castelo para se instalar na Madeira, nunca a quis ver. Voltou a casar e teve mais dois filhos. A rejeitada Bárbara também seguiu a sua vida, casou com um homem rico, foi viver para Lisboa e teve 15 filhos.

Que a vida dá muitas voltas e que nunca se deve cuspir para o ar é máxima sensata que já valia no século dezoito e há-de valer pelos séculos dos séculos. Quando Duarte Guilherme regressou ao continente doente e muito velho, foi a sua filha enjeitada quem lhe deitou a mão, o acolheu e dele cuidou nos últimos anos de vida. Tinha Bárbara 34 anos, a mesma idade com que a sua mãe morrera no dia em que ela nasceu.

Duarte Guilherme não deixou de assinalar isso, no seu suspiro de velho doente. Morreu aos 81 anos, em Lisboa.

sexta-feira, março 20, 2015

Vigor

És uma mulher ou uma ratazana, era o que me gritava a consciência quando, às sete da manhã, acordada há uns gordos minutos, me debatia com a velha lei da inércia. A minha consciência é muito má para mim, não sei como ainda a aturo ao fim de tantos anos. Só me cobra, a grandessíssima. Só me cobra e nunca me dá nada. Levanta-te e anda, ratazana, gritava ela, com aquela voz de reitora de colégio de freiras. Eu nunca andei num colégio de freiras, ouviste, eu sou um daqueles bons e robustos produtos da escola pública, desde a primária até à universidade! Eu sou laica e republicana, não temo o inferno nem me dobro às castas, estás a ouvir, sua velha ressabiada?

És uma ratazana, insistia ela, e depois ergueu os cantos dos seus lábios secos num assomo de sorriso cínico - a minha consciência nunca sorri, só assoma - para me indicar que não matasse o mensageiro. Recordou-me que eu mesma, andando mais cotovia que nunca, prometera que se acordasse espontaneamente muito cedo, daria corda às sapatilhas para pôr este rabo e estas coxas com uma rijeza condizente com a dos meus princípios éticos. E olhasse para o relógio, olhasse: 6.50 horas de uma manhã cinzenta, porém, amena. Anda, ratazana, faz-te mulher.

E eu fiz, embora decorrendo ainda mais 45 minutos de ratazana, após os quais decidi que se era para estar a ter pensamentos lúgubres, mas valia tê-los enrijecendo as coxas. E lá fui eu, com os fones nos ouvidos, desenrolando a minha lista Vigor, que é a das caminhadas. Começa com Djavan e acaba com Amy Winehouse e contar isto dá-me uma falsa aura de sensato consumo musical. O meu vizinho que estava à porta de óculos escuros, a fumar um cigarro, surpreendeu-me a caminhar dançando. Sim, dançando, ou vão-me dizer que resistem a abanar as nádegas quando alguém do outro lado dos fones berra "Kuduru!", sendo mesmo isso que pretende quem caminha às oito e tal da manhã.

Eu sei, vizinho, é esta minha expressão grave, de costas direitas, de quem lê o Expresso e filósofos contemporâneos. Pois tenho que lhe confessar que leio o Expresso só de vez em quando, o João Quadros é o meu filósofo contemporâneo preferido e, não raras vezes, começo a minha leitura diária de jornais pelas páginas finais do Correio da Manhã. Normalmente, a minha cara de mulher séria sou só eu a dar-me ares. Vocês também devem andar enganadinhos, mas eu nunca enganei ninguém, e a minha consciência está a assomar um sorriso cínico neste momento. É verdade, que queres, velha rabujenta? Se a minha playlist do Vigor tem pelo meio, além do kuduru, bandas chamadas João Lucas & Marcelo, Aviões do Forró, Sorriso Maroto e Tchê Garotos, estamos num país livre e ninguém tem nada a ver com isso.

quinta-feira, março 19, 2015

Julguem a minha mãe

"Ai, rapariga, estás tão magra. O que te vale é teres essa perna grossa, senão parecias um esqueleto".

Obrigada, mãe, sempre a considerar-te.

quarta-feira, março 18, 2015

Me julguem

Já fiz uma permanente e madeixas vermelhas.
Uma fotografia minha com 16 anos está num livro de Religião e Moral.
A minha comida de conforto é Nestum de arroz com açúcar.
Já acabei com um namorado porque ele não sabia quem era o Eça de Queiroz.
Ouço com frequência bandas sonoras de novelas brasileiras.
Até há poucos anos, desconhecia o verdadeiro significado da palavra basculante.
Sempre acompanhei os meus desgostos de amor com licores, tendo porém evoluído do licor Beirão para a ginginha e Porto vintage.
Apesar disso, nunca apanhei uma bebedeira a sério na vida.
Apesar disso, não planeio apanhar uma bebedeira a sério na vida porque acho que a gente esquecer-se do que faz é o pior que nos pode acontecer.
Reprovei no primeiro ano da catequese, mas a minha mãe já superou a vergonha.
Já conheci pessoalmente o Tony Ramos.
Acho que a pior bebida do mundo é a Seven Up.
Continuo a achar que toda a minha vida está nas canções dos Bonjovi.
Entre as leituras da minha vida estão os contos da Florbela Espanca.
Fico sempre mal nas selfies.
Uma das coisas mais incríveis que me aconteceu foi receber uma carta de um leitor de Ponta Delgada quando trabalhava num jornal regional do Porto.
Algo no meu organismo faz apitar o controlo de segurança dos aeroportos cerca de dois terços das vezes que lá passo.
Sucede-me muitas vezes sonhar com coisas que depois me acontecem e isso arrepia-me.
A seguir a escrever, a coisa que sempre quis fazer na vida foi ser actriz de teatro.
Entre as minhas comidas preferidas estão sangue de porco cozido com azeite, arroz de cabidela e fígado de cebolada.

Agora, como diz o Wandson, me julguem.



terça-feira, março 17, 2015

Escrita, ganha asas

Outras coisas recomeçam. Os workshops de escrita quotidiana Escrita Habitual vão regressar. Lisboa, Porto, Coimbra e onde mais houver gente com ideias, palavras a voar pela alma e muita vontade de soltar os escritores que trazem dentro. Garanto que os consigo soltar. Candidatos a escrever mais e melhor, apresentem-se - enviem mail para locaishabituais@gmail.com.

O primeiro workshop será em Abril, para um público muito especial, e já tem as vagas fechadas. Um grupo de pessoas que conheci há umas semanas, numa reportagem que me encheu o coração, e cujas palavras sábias, intensas e maravilhosas precisam de ser dadas ao mundo. Depois conto tudo.

Em Lisboa, há uns meses, foi assim, num estúdio encantador na LX Factory, com as minhas formandas concentradíssimas a treinar uma competência fundamental, a edição.


Do sétimo andar, vê-se o mundo tal como ele é

Do sétimo andar vê-se a rua toda, mas da rua não se vê o sétimo andar. A não ser que nos ocorra que do sétimo andar se vê a rua toda. Não ocorreu à senhora de certa idade que caminhava ao lado do marido e parou quando chegou ao tapume do prédio em obras, atrás do qual se agachou a fazer xixi, enquanto o marido prosseguia lentamente, fingindo que ninguém mijava por perto.
Do sétimo andar, vê-se o mundo tal como ele é. E a quase ninguém ocorre olhar para o sétimo andar, conferindo se alguém observa. O sétimo andar tem grandes possibilidades literárias.