segunda-feira, maio 18, 2015

Final feliz da história de um livro

Uma das práticas que mais aprecio nesta vida é a gratidão. De dar e receber. Lembram-se do livro "Antes que Anoiteça", do Reinaldo Arenas, cujo paradeiro esgravatei esforçadamente para o dar ao meu colega António, que o procurava com fé? Pois o António agradeceu devidamente. E regalou-se, dando a esta história um final feliz.

quarta-feira, maio 13, 2015

Das modas

Podia dizer muitas coisas sobre a moda das sapatilhas de cunha, mas uma mulher de estrutura larga e capacidade de projecção de voz tão larga quanto a sua estrutura disse-o muito bem e resumidamente ao entrar na loja de desporto onde eu fui, domingo à tarde.

- Eu quero é ber as sapatilhas de tacom.



quinta-feira, maio 07, 2015

Patas de caranguejo

És uma vulgar lambona, é o que tu és. Bem feita estares aí cheia de vómitos, suores frios e a sentires que vais desmaiar no meio da praça da Batalha. Bem feita por seres lambona. Isto era o que me dizia, de braços cruzados, a velha amarga que me serve de consciência. Dizia-me isto, a muito vaca, em vez de me deitar uma mão, em vez de me sentar e me chegar uma águinha das pedras. Nada, a grande velhaca. Continuava a dar-me sermões.

Não sei o que ando aqui a fazer, tanto pedi para ser consciência de outra pessoa, mas não - ralhava ela, sem pena de mim, do meu estômago inchado, dos meus suores frios, do meu andar trôpego pela praça da Batalha fora. Tinha que me calhar uma pessoa estúpida que, de tantos em tantos anos, por ser lambona, consegue convencer-se que a sua intolerância ao marisco é psicológica. Mas ó dona consciência, balbuciava eu, a desapertar o cinto onde não me cabia o estômago inchado, mas era uma tempura de caranguejo de casca mole... do melhor restaurante de sushi que já conheci na vida, um sushiman tão simpático, a fazer aquilo para nós... E sabia a tapioca, não sabia a caranguejo. E era lindo, lindo, assim dourado, com as patinhas abertas como raios de sol...

Quais raios de sol, qual tapioca, sua lambona. Como é possível que tantos anos a vomitar patinhas de caranguejo não te tenham ensinado nada, como é possível? E a panqueca japonesa com amêijoa, qual é a explicação?, e berrava-me, a muito bruta, sem pena de mim, quase a vomitar na Baixa do Porto. Vomita por aí, dizia ela, que estes turistas todos vão pensar que estás bêbada, é bem feita, sua lambona. Tentei explicar que a panqueca não sabia a amêijoa e estava tão linda, assim coberta de sementinhas e coisinhas verdes, ai coisa tão boa, ó consciência, mas tu não tens coração?

Tenho coração, dizia ela, e felizmente não tenho o teu estômago que parece um balão, é bem feita, é bem feita. Mas a grandessíssima não pode ganhar sempre e ocorreu-me uma coisa. Limão, gritei eu, limão! Quando me sentia a morrer dos enjoos da gravidez, comia calipos de limão. E fui à gelataria ali a chegar à 31 de Janeiro comprar uma bolinha de sorvete de limão e em boa hora, meus amigos, na melhor hora. Conteve-me as náuseas, acalmou-me o sabor amargo da boca e permitiu-me manter a compostura enquanto aliviava os suores com o ar fresco nas trombas.

A minha consciência está amuada comigo e não lhe digam que ainda sinto patas de caranguejo e ameijôas a fazer zumba no meu estômago, que ela não precisa de saber tudo da minha vida, está bem?