quarta-feira, novembro 25, 2015

Cozinhas feias e outras reflexões

Às vezes acontece eu estar a reflectir em alguma questão ou a passar uma determinada fase e dar de caras com alguém que consegue resumir de forma certeira aquilo que anda revolto na minha cabeça, nas minhas emoções. Foi o caso do post que li ontem da Minimalist Mom, um blog sobre vida simples que acompanho há alguns anos.

O post chama-se How to love your ugly kitchen e o título chamou-me a atenção por ser paradoxal, mas também porque fez tocar um pequeno sininho cá dentro.

A autora conta como, depois de uns anos a viver na Europa, regressou ao Canadá e à casa que tem em Vancouver, com a família. Acompanho a jornada desta família e por isso sei que todas as mudanças lhes trazem sempre mais uma lição e mais plenitude na sua escolha de vida simples. O título deste post sobre como amar a nossa cozinha feia fez-me lembrar outro post antigo dela que me ajudou, por toda a reflexão que induziu, a dar grandes passos de serenidade. Ela dizia, a propósito de todas as transformações que a vida dela ia passando, à medida que tinha filhos, que amadurecia, que ia evoluindo na sua relação com o mundo, que é preciso aceitar a fase da vida em que estamos. Deixá-la correr, deixá-la ser o que é, sem tentar mudar o que não pode ser mudado, sem lamentar o que se perde - aceitar aquilo que tem que ser tal como é.

Eu, mãe recente e com uma vida muito mais atribulada do que queria, com um desajustamento íntimo que me deixava desconfortável, beneficiei muito ao pensar nisso - e ao treinar-me para aprender a aceitar as fases da vida.

Com a cozinha feia, também se tratou de aceitação. Ao regressar à casa de Vancouver, ela lembrou-se de como não gostava muito da cozinha, que era feia, pequenina, sem a arrumação ideal. Contudo, tal como quando lá tinham vivido antes, a cozinha funcionou, as coisas foram arrumadas de uma forma ou de outra, e a vida continuou. Agora, a família dela tem outras prioridades e não sobra dinheiro para reformar a cozinha, por isso vão ter que continuar a viver com ela assim... feia.

I’m learning to love my ugly kitchen. Ugly kitchens are a first world problem. I’m lucky to live where I live and have what I have.

E mais uma vez, a Minimalist Mom resume o que anda revolto no meu pensamento e que eu tenho praticado sem conseguir dar-lhe um nome. Boa parte daquilo que nos consome são problemas de primeiro mundo. Cozinhas feias, não ter roupa que nos satisfaça, estar cansada das mesmas botas, aborrecer-se no trabalho, esperar numa fila de trânsito, demorar no supermercado por causa da velhinha tagarela que nos antecede na caixa. Problemas de primeiro mundo não são problemas. Temos sorte quando a primeira chatice existencial que nos ocorre é a nossa cozinha feia, o nosso guarda-vestidos monótono, os canais de televisão onde não dá nada de jeito, o trânsito na VCI.

Um dos problemas que me consumia e deixou de consumir, entre muitos outros mais sérios - há quanto tempo não escrevo aqui? - era o de não conseguir manter a escrita no blog regular. Tinha criado um público, tinha pessoas que esperavam pelos meus posts e sentia que devia escrever com horas e dias certos, alimentar essa audiência, disciplinar-me. Eu sinto necessidade de escrever, é a forma mais autêntica de me relacionar com a realidade, comigo, com os outros, com o mundo que cintila e borbulha em meu redor. Mas nos últimos meses, passei por mudanças grandes para mim, embora mínimas para a humanidade. E não tinha vontade, força, motivação, desejo. A novidade é que deixei de me sentir angustiada por isso.

Por isso, eu que gosto de cozinhas feias e de muitas coisas feias em geral, porque tantas vezes são as mais genuínas, quero ir voltando a escrever sobre os meus locais habituais, mas não prometo quando nem como.
Vou escrevendo, se vocês quiserem, vão lendo também.