quinta-feira, setembro 05, 2019

Eu gosto da minha cozinha feia


O molho de beterradas que nos deu um vizinho na janela da minha cozinha.
Por várias razões - falar de todas dava um livro - falhei em conseguir escrever regularmente neste blog, como sempre quis. Contudo, a vida foi seguindo e desenrolando-se, sequencial como um novelo que solta o seu fio, mas sem a sua previsibilidade. Ou seja, a vida é como um novelo, só que a linha que dele se vai soltando é uma surpresa a cada puxão. Ora é fina, ora espessa, ora macia, ora áspera. Às vezes, cria nós que não sabemos como desfazer. Outras vezes, o novelo parece que não desenrola nas nossas mãos ansiosas. Aprender a aceitar e a ter calma continuaram a ser os meus principais desafios enquanto tricotadeira deste novelo.
Posto isto, vamos ao título deste texto de regresso. Tem apenas a ver com a ironia que me sucedeu, já que depois de deixar como último escrito aqui pendurado um elogio ao texto da blogger canadiana Minimalist Mom, sucedeu-me viver algo muito parecido. A autora descreve como voltou à sua casa depois de alguns anos emigrada na Europa, para deparar com a sua cozinha feia, da qual nunca gostara. Naquela altura da vida, de regresso, de reencontro, a cozinha acabou por ser englobada no sentimento de aconchego. E ela declarou estar a aprender a amar a sua cozinha feia - que, afinal, sempre desempenhara a sua função. Consumir-se por ter uma cozinha feia era, concluía ela, apenas um problema de primeiro mundo que não a devia atormentar.
Foi este o texto que me ocorreu quando entrei pela primeira vez naquela que viria, alguns meses depois, a tornar-se na minha própria cozinha feia. Numa emocionante reviravolta, dei por mim a voltar à minha terra e foi um mergulho de cabeça naquilo que eu mais gostava dela - a sua cara soalheira de aldeia, as suas pessoas reais e descomplicadas, o seu modo de vida simples e pragmático. E esse regresso envolveu uma cozinha feia. Sou agora a feliz dona de uma cozinha feia e muito pequena, mas de cuja janela se vê um quadro maravilhoso. A minha cozinha feia é o coração da casa, que também é pequena e cheia de defeitos, mas tão encantadora que entrou como uma flecha na minha alma desprevenida.

Assar legumes foi a minha coisa favorita dos últimos meses.
A cozinha foi pintada e arranjada por nós, mas continua longe daquilo que, para mim, seria uma cozinha cómoda. E por ela ser pequena, comecei por determinar que só se comeria na mesa da sala, mas foi em vão. Também tive que aceitar que a minha família, um pouco como as abelhas em redor da abelha mestra, quer começar o dia na nossa cozinha feia, mesmo que me estorvem os movimentos entre o frigorífico e o armário. Dou por mim a espremer-me para encaixarmos os quatro a tomar o pequeno almoço em escassos metros quadrados. E todavia, eles não pensam no mesmo que eu - que é o não haver necessidade de estarmos ali apertados quando há na sala ao lado uma mesa maior. Eles pensam que é bom estarmos todos juntos, a conversar e às vezes a ouvir umas canções no youtube enquanto comemos, antes de partirmos todos para os nossos afazeres de escola e trabalho. Na minha cozinha feia, acabei por dar o braço a torcer. O prazer de estarmos juntos prevalece sobre todas as coisas, incluindo sobre a minha liberdade de movimentos e torna o desconforto algo muito relativo.
E enquanto assim for, a minha cozinha feia será sempre bonita. E, tal como a Minimalist Mom, aprendi a gostar da minha cozinha feia, onde os meus filhos riem e cantam ao início do dia, e onde partilhamos chávenas de café à janela, a conversar de olhos no horizonte. Serve a cozinha para falar também deste blog. Volta e meia, nos últimos meses, atirei-me com entusiasmo a testar novos esquemas, mais limpos e mais modernos, a experimentar letras e títulos. Foi sempre frustrante porque eu gosto é de escrever, mas não tenho paciência para aprender as manobras do desenho digital. Não gostei de nada do que experimentei, não consegui completar nada, fiquei impaciente e desisti. Acabei por voltar sempre a este modelo básico, com as caixinhas que criei há anos e se mantêm actuais. O meu blog feio, tal como a minha cozinha, funciona. Nele, faço o que é preciso, mesmo com um esforço extra de tempos a tempos - como ter que tirar todas as assadeiras do forno e empilhá-las sobre a pequena mesa sempre que quero fazer um assado. Enquanto me afadigo nessa ginástica, entra uma luz boa pela janela e eu faço assados todas as semanas. Por isso, vou é escrever no blog e não pensar mais nos seus defeitos.
Sintam-se, então, muito bem-vindos ao meu blog feio, espero que se torne um lugar bonito para quem vier por bem.

2 comentários:

CSC disse...

Que bom Dora: fico autenticamente feliz com este regresso. A beleza estará sempre em nós.. :-)

Titi disse...

Que bom! Queremos é o conteúdo, deixa lá a forma.
Bem-vinda de volta.

Eu gosto da minha cozinha feia

O molho de beterradas que nos deu um vizinho na janela da minha cozinha. Por várias razões - falar de todas dava um livro - falhe...